domingo, 18 de maio de 2014

O post mais inútil do blog

"O que tu come?"
Essa é a pergunta que eu escuto da metade das pessoas com quem eu converso sobre o meu problema.

Quanto mais você se ocupa de um assunto, mais você aguça, refina sua percepção quanto a ele, certo?
Bom, no meu caso, em vez de ir aprimorando, eu vou "aporcalhando", ficando cada vez menos exigente.
Por isso, este será o post mais inútil de todo o blog. Vou registrar aqui minhas amiguinhas dos mais mórbidos momentos. Primeiro, alguns requintes que infelizmente eu já realizei, e depois as mais batidas.

TOP 5 - crise bulímica - EXPECTATIVA

1º lugar – sorvete junto com qualquer coisa de morder (vômito geladinho depois hahahahah você não queria saber disso... mas o blog é meu)


2º lugar – bolo de nozes, todo só pra mim


3º lugar – pizza de brócolis com bacon


4º lugar – fondue, delíciaaaa


5º lugar - churrasco



TOP 5 - crise bulímica - REALIDADE

1º lugar – pão (com margarina, açúcar, qualquer coisa que faça descer), o alimento mais consumido do mundo depois do leite e seus derivados, claro que sempre tem bastante em casa também...


2º lugar – pipoca, tão compacta quando está em forma de carocinho... mas depois tem o poder de me ocupar por um bom tempo


3º lugar – leite condensado


4º lugar – bolo de microondas, o meu fica uma tristeza, mas o desfalque de farinha é algo que ninguém nota em casa


5º lugar – muita banana, porque a coisa é matemática. Pra ninguém perceber, existe a proporção certa que eu posso fazer desaparecer do volume total. A proporção é sempre a mesma, mas quando o volume total é maior, o volume absoluto do sumiço também pode ser maior.


Fica a não-dica. O pior post de todos é um insulto à gastronomia.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Entre a castidade e os pintos ensanguentados: o melhor da vida

Uma vez uma pessoa que eu detesto colocou essa frase respeitável no MSN: “ENTRE o 8 e o 80, o melhor da vida”. Ali estava a sabedoria de que eu precisava.



Cresci em uma família evangélica em que o conceito de certo e errado era extremamente rígido. E aquela dualidade se enraizou em mim.

Era o Espírito Santo ou um demônio sádico quem sussurrava os versículos de que eu sempre me lembrava?

 “Assim como a mosca morta produz mau cheiro
e estraga o perfume, também um pouco de insensatez
pesa mais que a sabedoria e a honra
(Eclesiastes 10:1)

 Como você é morno, não é frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca (Apocalipse 3:4m16)

Isso queria dizer que eu teria que ser irrepreensível, pois se em algum ponto eu falhasse, toda a virtude estaria perdida. Então que chutasse o balde mesmo.

E assim eu ia... eu não vivia: me debatia.

Tudo na minha vida começou a ser um reflexo desse antagonismo:

Ou eu comia pouquinho e impecavelmente como manda o script, ou enchia o bucho com coisas inimagináveis.

Em um momento eu era a mamãe amorosa e centrada, e em outro, a adolescente enlouquecida.

Em uma fase eu freqüentava a igreja e falava com Deus no meu coração a todo o momento, e em outra só ouvia Mister Catra (já me converti umas 50x).

Gosto do silêncio absoluto, ou de explodir os tímpanos na balada.

Gosto da solidão, ando sozinha na faculdade, nunca tive habilidade social nenhuma, mas gosto também de cair de pára-quedas em ambientes onde não conheço ninguém, e ir a lugares movimentados onde todo mundo me esbarra e não consigo me mexer.

Eu só usava tênis ou salto 11cm. Durante a semana, uma mendiga, e no fim de semana, um drag queen.

Quando alguém fuma perto de mim, “me retirar” é pouco: eu fujo da fumaça como o diabo foge da cruz. Mas se a hora é minha, trago um charuto “bitoludo” até o fim.

O que me agrada é sempre um homem ogro, ou uma menina bem feminina.



 

Continuando...
Falando em sexo, eu sempre selecionava bem, ficava tempos em abstinência, e daqui a pouco estava quebrando solda de cama de ferro e rompendo veia de pinto, dando risada porque não eram meus nem a cama e nem o pinto, e tirando foto pra registrar o estrago.

O meu perfume com certeza é Ange ou Démon da Givenchy. Na verdade é UP mesmo... hahahah

É claro que ninguém consegue viver assim. As pessoas próximas a mim nunca sabiam o que esperar. Eu não poderia seguir sendo traiçoeira. Então, para passar mais segurança para minha família, hoje eu aprendi a encontrar o equilíbrio e abandonar o extremismo na maior parte das questões que eu citei.

“Não sejas demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo? (Eclesiastes 7:16)

O conflito existencial que dá origem a todos esses reflexos é o real problema. A bulimia é apenas um dos sintomas, um dos reflexos, mas um reflexo que tomou uma proporção tão grande que roubou a cena como se fosse ele o próprio problema. O que você assume como sendo o sentido da vida é a base que estará regendo toda sua forma de viver. Se a sua ideia de sentido da vida está um caos, é em caos que você vai viver. E eu não sei mais onde Deus está...

Palito do mau

Uma vez eu voltava a pé de um almoço que eu estava a 6km de casa. Um almoço em que eu tinha comido demais, e estava sem a escova de dentes pra fazer cócegas na goela, então comprei um picolé pra usar o palito. Quando terminei o picolé, entrei no banheiro de um posto. Ao entrar, vi que não tinha chave. Fiquei um tempo encarando a massaneta... ninguém entraria, mas se entrasse seria nojentamente chocante. O pior era que o banheiro era tão grande que eu não tinha como segurar a porta com o pé enquanto usava o vaso. Mas resolvi encarar.

Quando eu ia começar o ritual, o frentista abriu a porta. Em um reflexo idiota enviado pela minha consciência moral, eu escondi para trás a arma do crime: o palito. Olhei pra ele com indignação, pensando em como seria o momento se ele tivesse me surpreendido 30 segundos mais tarde.

(Aí ele me falou: “não pode se drogar aqui, moça”.
Aí eu falei: “mas eu não tava me drogando”.) 6X


Aí ele falou: “então o que você está escondendo aí atrás???”
Então eu, com uma cara de não-biga-comigo-eu-tava-quietinha-no-meu-cantinho, mostrei o que eu tinha na mão: “é só um palito de picolé”. Ele pediu desculpa e saiu. Eu entrei de novo na puke vibe e terminei o serviço.


MEU VÍCIO É LÍCITO. Cheirar pó não pode, encher a pança pode. Então era por isso que não tinha chave... O pessoal devia estar fazendo um uso intenso do banheiro. Banheiro de posto, eu só tinha usado até hoje pra beijar as amigas, e isso também é lícito, mas já é outra história.

Com certeza, alguma análise visual, ainda que instintiva, eles deviam fazer da pessoa antes de sair abrindo a porta do banheiro toda vez. O cara foi embora achando que tinha se equivocado, mas não tinha. SE ELE ENXERGOU NOS MEUS OLHOS A MESMA CARGA DE CULPA, FUGA DA REALIDADE E EXAUSTÃO QUE  VÊ NOS OLHOS DE UMA DROGADA, ELE ESTAVA CERTO.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Sopa de bolacha maria é melhor que sexo

A ENGENHARIA DO VÔMITO


Dizer que eu desejo mudar nunca vai ser 100% verdade. No dia que eu repudiar 100% meu vício, logo, não há vício. A doença consiste justamente em desejar o objeto do vício, então como posso dizer que não quero justamente o que quero? Posso dizer, sim, que existem no mínimo duas de mim dentro de mim. E elas brigam muito.

Lembro de uma vez que minha mãe captou uma evidência de que eu tinha vacilado, e falou: “eu não entendo! Quem está doente, pede ajuda! Não fica escondendo que está doente!”. Então meu pai explicou pra ela: “mas não é uma doença involuntária e física como câncer, é uma dependência como alcoolismo!”. Brilhantes, eles.

Mas sempre tentei mudar, mesmo não querendo totalmente. E na falta de uma cura total, eu procurei táticas que pelo menos diminuiriam meus ataques, e adiariam o colapso da minha saúde.
Essas táticas, eu dividi em três tipos:



TÁTICA DO “VÍCIO SUBSTITUTO”: já cheguei pensar que se, por algum motivo, meu cérebrozinho precisa ter um comportamento compulsivo, talvez eu pudesse apenas substituir o foco da obsessão por outro menos danoso. Imaginem que maravilha: agora sou viciada em estudar francês!

1-      Bulimia <- por -> MÚSICA. Nos primeiros meses em que eu estudei violão, em vez de eu chegar em casa e ir direto para a cozinha, eu chegava e subia direto para pegar meu violão. Tocar era aquele momento que não se quer que acabe, momento tão raro. Talvez eu sempre tive esse lado músico meio frustrado... sufocado pela minha consciência intransigente sempre me reprovando por qualquer coisa que não fosse estudo-diploma-pé-no-chão-atitude-de-mulher-mãe. Já fiz alguns bicos quase insignificantes na área, e em um desses briguei com o secretário de desporto e cultura e dono do melhor estúdio de gravação da cidade, em uma situação que eu poderia contornar com mais jogo de cintura. Não sou de brigar, mas no fundo devo ter feito isso pra provar pra mim mesma que não preciso de música, de tanto que preciso. Sobre essa frustração na música, a medida que fico mais madura e amistosa, vamos ver até quando as oportunidades param de me fugir, pois elas estão sempre surgindo ;). Sobre o violão, que era um consolo melhor que a comida, não entendo por que um refúgio simplesmente perde a eficácia,enquanto no outro refúgio eu me afundo mais e mais. Enfim, não dá certo.

2-      Bulimia <- por -> SEXO. Como manter esse vício sem detonar minha reputação? Encontrando um outro viciado. Apenas um.  E eu escolhi a dedo. A dedo podre. Tinha que ser do tipo de cara que se apaixona por mim, pra querer minha figurinha repetida dia após dia. Geralmente são os caras com uma pitada de malandragem, não sei por que. Tinha que ser alguém sem nenhuma qualidade além de ser bom de cama, pois, no caso de ele se apaixonar demais, eu não teria dó. Teria que ser vagabundo, para estar disponível em qualquer uma das brechas do meu tempo contado. E teria que morar em um raio de 100m da minha casa. Dez minutos de busca no orkut e eu escolhi o Gigante. Eu estava há 2 anos sem sexo por causa da maternidade, então, chegando lá, praticamente falei Oi já tirando a roupa. Isso foi em 2009, e durou muitos anos, o mesmo esquema. Era segunda-feira na primeira hora da tarde ou terça-feira de manhã, sem cerimônia. Quando a minha “Esperança” era bebê, eu cuidava do sono dela pela webcam do MSN dele. Qualquer coisa, eu estava em casa em alguns segundos. O maior resultado dessa história foi uma grande amizade. Hoje, tenho por ele um amor de irmão. O que terminou com a minha ilusão ninfomaníaca foi meu namoro (com uma outra pessoa). Ele me podou os instintos até me fazer ver que, na verdade, sou bem normalzinha, e por mais que seja MUITO bom ver aquele macho rudimentar em cima de você com cara de predador... sopa de bolacha Maria com leite é melhor ainda. Sempre é. Não dá certo.


3-      Bulimia <- por -> POR FAVOR, OUTRO VÍCIO! ALGUÉM?? SERIADOS, FACEBOOK, LIMPAR A COZINHA, ESPREMER ESPINHAS, QUE SEJA!!! Com esses, eu aprendi uma coisa muito importante: a tendência não é que um vício elimine o outro, é que ele apenas acrescente. Nesse caso, o problema é que DÁ certo.

A conclusão é que eu não sei falar francês assim como ninguém se vicia em legumes.



TÁTICA DA “CIRCUNSTÂNCIA DIFICULTADORA”: existem algumas situações que, entre outras vantagens, evitam naturalmente as crises.

1-      VIAGEM. Eu havia falado em clínica de recuperação ou SPA, mas viagens funcionam muito bem quando são dinâmicas e curtas. Porque se eu sentir que já estou morando lá, aí a inimiga Mia fica se sentindo em casa também. Quando fiquei 20 dias na Itália, tive apenas uma crise, pois eu tinha muitas colegas de quarto e sempre tinha companhia para as refeições. Todas as meninas engordaram, e só eu emagreci. Me alimentei de fascínio.

2-      TIGHT LACING. Usar Corset reforçado com barbatanas de aço por longos períodos para diminuir a cintura. Logo que provei, eu vi que me esmagava tanto que eu conseguiria comer muito pouco, e não conseguiria me curvar se eu tentasse vomitar. Usei durante 3 meses, 6 horas por dia. Sentia fraqueza nas pernas (má circulação), pressão nos olhos, palpitações no peito, dor nas costas, tinha apnéia durante o sono, e estava sempre apática e tossindo. Mas não era tão ruim assim. Como não obtive nenhum resultado, parei. Agora só uso pra bonito. Não valeria a pena usar por anos, a troco de tão pouco resultado. A imagem não é um Antes e Depois. São apenas minhas variações jogadas ali: mais bronzeada, menos bronzeada, contraindo, relaxada, uns 2kg de diferença... coloquei a foto da esquerda para mostrar a realidade crua e cruel. hahhahahahhaa Pelo menos não sou obesa, mas ainda assim é lamentável olhar essa barriguinha larga... e sobre a dificuldade circunstancial... Não dá certo. Eu ainda tinha umas 10 horas do dia pra encher a barriga e depois “me curvar”.


A conclusão é que eu como e vomito até acorrentada e jogada num poço. Nem a cirurgia do siso, com seus pontos, dores e infecções me impediu de abrir a boca pra vomitar.



TÁTICA DA “PAIXÃO INCENTIVADORA”: algumas metas nos fazem querer estar bem pra conseguir evoluir pra ontem!

1-      ESPORTES. Eu faço há 7 anos sem parar. Preciso de desafios e coisas novas. Já experimentei boxe, muay thai, tecido acrobático, pole dance,street dance, dança do ventre, natação, vôlei, e todas as aulas experimentais da cidade. A última febre foi a corrida. Cheguei a 16km de distância, e na última competição, fiz 10km em 45 minutos, com 3 meses de treino. Quando estou em clima de ultrapassar limites, a bulimia é só um mosquitinho que me atrasa. O problema é quando resolvo vomitar o café da manhã, vomitar o almoço, correr 15km no sol das 13h, e ainda assim não me sinto cansada. Daí já não sei mais nada. A foto abaixo eu tirei do suor (formando uma borboleta) no chão da sala de ginástica de uma das academias que eu fui. O suor do rosto é um caminho para a liberdade.



2-      NUTRIÇÃO. O acompanhamento de um profissional sempre dá um gás para evoluir na dieta. É até engraçado pagar para alguém te dar diretrizes que você nunca vai seguir, mas nunca é completamente em vão. A dieta te dá segurança. Às vezes achamos que por 4 fatias de pão estamos em total decadência, sendo que aquela é a quantia que precisamos. Em outro post vou colar minhas dietas e comentar as dicas e o efeito psicológico delas.


    To até desanimada pra finalizar esse post. A conclusão é que não tem conclusão. Nada deu certo.
    Vou continuar me apaixonando pra diminuir as crises... E vou ser livre.
a 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

SQUARSPIRATION

Aqui, nada de thinspiration


SÓ AS LINDAS E QUADRADINHAS QUE NEM EU *-*






Gordo de comer gelado

Uma vez um amigo meu falava mal de gordo enquanto dirigia. Nunca me esqueço da expressão que ele usou para causar o efeito máximo do cúmulo da gordisse: “mas daqueles gordos de comer gelaaado!”. Eu olhei pra ele com uma cara de espanto. Eu me espantava por que não achava que comer gelado fosse uma gordisse tão desesperada assim. Ele achou que meu espanto era de imaginar que alguém cometeria tamanha gordisse, e falou: “sim!!! Tem gente que vai na geladeira e come comida fria mesmo! E de pé! Nem senta pra comer!”

Eu fiz silêncio. Um sereno silêncio.


Por dentro eu explodia: “PU-TA-QUE-O-PA-RIU. ISSO É DESESPERO DEMAIS?? E TIRAR COMIDA DE DENTRO DO LIXO DA COZINHA PRA COMER? ESSE GORDO PELO MENOS ESTÁ DE PÉ! E EU QUE JÁ COMI DE JOELHO PRA COMER COMIDA DO CHÃO?? O que é isso pra você então? E eu que já comi todas as pelancas de carne de uma sacola que meus pais trouxeram de um churrasco de 30 pessoas pra dar pra Capitu? Simplesmente, vai se fuder.”


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sentindo no couro a primeira crise de abstinência

Por volta dos 18 anos, comecei a piorar significativamente. Tudo perdeu a lógica. O leite condensado que eu encontrava na despensa, eu comia. Então eu comprava outro para repor antes que alguém desse falta, mas comia. Então eu comprava outro para repor, mas comia. E aquilo não tinha fim, e eu estava aos meus próprios cuidados. Eu ainda não sabia que era viciada. Eu achava que não conseguia parar porque não tinha “tentado bem tentado”, e eu estava sempre “tentando”, cheia de culpa e frustração.

Graças a Deus, minha mãe me pegou no quarto comendo um saco de farinha branca pura (com uma garrafa de água para a farinha poder descer), então tivemos uma conversa triste e franca. Enfim, eu tinha alguém para me acorrentar, algo que eu precisava com urgência. Não sabemos o tamanho da nossa dependência, até tentarmos nos livrar com todas as forças, e fracassarmos. Nesse momento, eu vi como eu era doente. Passava o dia engolindo a seco e pensando na comida como se tivessem arrancado um pedaço de mim. A sensação do estômago fazendo uma digestão normal me assustava, pois até então eu só sabia o que era ter o estômago completamente cheio ou completamente vazio. A única coisa que me aliviava era pensar que por todo aquele esforço de abstinência, eu iria me premiar, após um ou dois dias, com adivinha o que? Com mais uma orgia alimentar! Por que dela, por ela e para ela são todas as coisas... Uma orgia alimentar era sempre um evento sagrado e muito esperado.


Ex alcoólatras falam como o importante é evitar O PRIMEIRO GOLE. O primeiro gole é sempre o dispositivo que faz tudo ir por água abaixo. Mas como evitar a primeira mordida em um alimento? Vocês têm noção do quanto é difícil encarar meu fantasma 5 vezes por dia? Muitas vezes eu desejei que existisse uma clínica de recuperação para isso, mas não existe. Um SPA seria perfeito, para quem tem dinheiro e tempo.


E a doença continuava... com menos frequência, mas com muito mais tensão. Descobri que a doença não estava apenas no procedimento que a caracterizava, mas sim na minha mente. O NÃO comer-e-vomitar é tão desesperador quanto o comer-e-vomitar. Uma simples roda de amigos com um petisco no meio da mesa é a situação mais penosa para mim. As pessoas conversam... e aquela presença no meio da roda me rasga... eu olho para elas jogando conversa fora, e queria tanto ser normal como elas... mas comer coisas gostosas junto com as pessoas só desencadeia no seguinte pensamento: "uma hora eu compro 500 disso pra comer sozinha". E mais uma meta doentia se instala na minha lista imaginária, e aguarda o grande dia...




Durante o processo de paranoia, eu evitava os conhecidos na rua, não cumprimentava. Se estava em casa, não atendia o telefone. Uma vez, no meio de uma orgia alimentar, meu namorado chegou à minha casa sem avisar. Aquela foi a primeira e única vez na minha vida que eu encostei em um ser humano durante uma crise. Quando eu senti a pele dele na minha, foi como se algo em mim fosse desconstruído e depois recriado. Não sei como, mas foi realmente um abraço do outro mundo.



 Não sei se vocês sabem quem é a morena dessas fotos. É Millie Brown, uma artista que pinta quadros com o próprio vômito, que foi convidada pela Lady Gaga pra vomitar em cima dela durante um show. Sem comentários... bizarrice maquinada, bizarrice atingida. Nunca tinha visto isso sendo explorado de forma comercial...



VÍCIO: o vírus da metamorfose




Quando uma mania vira verdadeiramente um vício?
Quando essa mania passa a prejudicar outras áreas da vida. Essa foi a melhor definição que já vi. Quando o hábito extrapola seu limite natural, é porque não se tem mais controle sobre ele, e ele vai tocar sua saúde, seu rendimento profissional, sua vida social e familiar e o pior: seu caráter.
Veja como a bulimia se alastrou por cada esfera da minha vida.

SAÚDE: virando zumbi
Vi uma conhecida ir internada após um ano dessa prática. Noto que o anseio desenfreado pelo emagrecimento é muito mais perigoso do que o anseio pela comida. No primeiro caso, cada pequena quantidade de comida é expelida, então o ácido passa muito concentrado pela garganta, machucando-a, e a deficiência nutricional é muito maior. No meu caso é diferente: o ácido vem tão diluído em comida, que nunca me machucou, mas mesmo eu não apresentando deficiência calórica, e tentando compensar o desfalque nutricional comendo de forma saudável depois, sei que não é o suficiente. Posso pagar caro no futuro, pois a carência nutricional é cumulativa ao longo da vida, e a fraqueza, tremores no corpo e dores no coração devem estar ligados à falta de nutrientes. As pintinhas de sangue ao redor dos olhos acusam a pressão que o rosto sofre, e os dentes vão perdendo o esmalte que nunca voltará a ser o mesmo. A erosão ácida nos dentes também pode ser provocada por refrigerante, frutas e vinagre. Nunca se deve escovar os dentes logo após acidificar a boca. Deve-se apenas enxaguar, e esperar 15 minutos para escovar (meu pai dentista vive batendo nessa tecla).

RENDIMENTO: dormindo no vaso
Já aconteceu de eu pegar carona para o campus universitário com a minha mãe, chegar lá, e simplesmente dar meia volta e pegar um ônibus para uma lancheria durante uma aula importante. O que dirá chegar atrasada... Isso virou regra. No meu estágio, eu chegava quase todos os dias direto de uma crise bulímica, que causa um sono incontrolável. Eu ia para o banheiro e dormia sentada no vaso.

AMIGOS E FAMÍLIA: perdendo-os
Uma vez, minha irmã me apresentou a um amigo inconveniente que me cumprimentou assim: “Oi, prazer. O que você tanto faz LÁ EM CIMA??”. Eu falei que não entendi, então ele explicou: “É que a tua irmã disse que VOCÊ NUNCA FICA JUNTO COM A FAMÍLIA. Você está sempre fazendo alguma coisa... lá em cima”. Eu realmente era muito ausente, pois estava ocupada me destruindo. Quando ela descobriu meu problema, disse que por um lado era bom saber que eu não era ISOLADA por querer.
Ninguém pode se julgar uma pessoa “menos ruim” porque não faz nada de mal para os outros. NADA QUE VOCÊ FAZ CONTRA VOCÊ MESMO, CAI APENAS SOBRE VOCÊ. AS CONSEQUENCIAS TOCAM AQUELES QUE ESTÃO AO SEU REDOR. Minha mãe pode ter me ajudado, mas duas psicólogas acharam que ela precisava mais de terapia do que eu, pois ela se encontrava muito abatida, explosiva e sem saber como lidar.
Na aula, eu freqüentemente chegava com o raciocínio lento, com dificuldade de conversar, com medo de sentirem algum cheiro em mim, e mal arrumada por falta de tempo (tempo que a bulimia roubava). Então, novamente, eu me fechava. Porém, quando a marcação em casa apertou, passei a comer na rua mesmo. Eu mamava leite condensado na frente das vizinhas, comia ininterruptamente barras de chocolate durante toda a ida de ônibus até a faculdade, no meio de todos os outros universitários, e vomitava nos banheiros do prédio, mesmo que o lavatório fosse externo ao boxe sanitário! Independente de alguém ter me observado ou não, eu já me colocava no papel de “UMA LOUCA QUE NÃO VAI CONSEGUIR AMIGOS POR AQUI”.

CARÁTER: momentos de ladra
Eu acredito no respeito que um ser humano deve ao outro, nos mínimos detalhes. Mas o vício pode desfigurar o caráter de alguém. Quando se trata de comida, EU SEMPRE MINTO: não fui eu que comi. Não fui eu que gastei. Não estou com fome.
Teve um momento em que eu pedi para meus pais TRANCAREM A COMIDA na despensa. Meu pedido era genuíno. Mas aquele CADEADO nunca pôde comigo. Eu descobria a senha, seja por tentativa e erro ou por dedução. Na falta dos dois, eu dava um jeito de retirar o cadeado fechado mesmo, e devolver como se nada tivesse acontecido. Às vezes, eu tinha um momento de lucidez e denunciava a mim mesma, para que eles reforçassem a segurança. Outras vezes, não.
Outro pedido que fiz foi que eles controlassem meu DINHEIRO por um tempo. Esse pedido também foi legítimo, mas antes eu nunca tivesse aberto a boca. COMECEI A ROUBAR. Mercados grandes ou pequenos, não importava, as câmeras sempre têm um ponto cego. Eu gostava de pensar que, alguma dignidade eu ainda devia ter, então eu roubaria os produtos mais baratos possíveis, como as rapaduras. Doce enganação. Eu acabava não resistindo aos chocolates. Que ridículo seria alguém pegar uma moça nada pobre larapiando bolachinhas no mercado. Simplesmente patético.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Matadora de Psicólogas



Matei todas elas. Uma eu matei de susto, outra eu matei de desgosto, outra me entediou demais e a atual eu planejo matar por dinheiro. Ah, e no meio dessas mulheres, teve um homem que eu matei por prazer mesmo. Vamos aos fatos:

Psicóloga nº1, a BOCA-GRANDE: essa não fedia nem cheirava, até que a namorada do filho da empregada do marido dela veio me dizer que ela abriu a boca. Daí começou a feder. Quanta ética... ela me chamou no consultório para me pedir desculpas, dizer que entendia que a confiança havia acabado e que não ia mais me atender. A explicação dela foi que ela ficou tão preocupada com algumas coisas que eu disse, que teve que contar para o marido, e a empregada ouviu. A psicóloga se assustou com um problema... ta bom. Cobrou a consulta.

Psicóloga nº2, a VOVÓ-PERDIDA: essa me acompanhou por quase 4 anos. Desenvolvemos uma boa amizade. Sentia que ela não interferia muito, era bastante imparcial, mas eu respeitava o profissionalismo dela. De repente, ela sumiu. Eu tentava remarcar meu horário, que antes era fixo, mas ela não atendia ou dava desculpas. Assim foi por meio ano. Mandei um e-mail perguntando se ela estava bem, falei que entendia se ela tinha os problemas dela, mas eu tinha o direito de ter um retorno sobre o que estava acontecendo. Ela não respondeu. Até que minha mãe a encontrou na rua. Ela estava bem, mas só saiu pela tangente, e tentou amenizar dizendo que tinha escrito uma carta para mim. Nunca recebi. Mais tarde, conversando com psicólogas amigas e da família, a opinião unânime foi que ela se sentiu incapaz de resolver meu problema. Não deu conta. Desistiu. Ela não poderia me falar a verdade pra eu não desistir também. Vovó-perdida, eu ainda amo você.

Psicóloga nº3, a BURRA-GRAÚDA: essa foi escolhida devido à linha cognitivo-comportamental, considerada a mais eficaz para tratar transtorno alimentar. De graúda ela tinha tudo, a altura, a pose e o ego, manos a inteligência. Eu saía de lá me sentindo muito superficial. Todas as perguntas me pareciam sem propósito e todas as conclusões, absurdas. E o mais complicado, ela me intimidava. Mas fui confiando que talvez ela chegasse a algum lugar. Até que ela acertou em uma coisa: dirigiu o tratamento de forma multidisciplinar, como ele deve ser dirigido, e me encaminhou para uma nutricionista e um psiquiatra. O psiquiatra que ela indicou foi tão profundo e meticuloso, que comparar os dois foi a gota-d’água pra eu dar um fim naquele tratamento supérfluo com ela. Mandei um e-mail sincero e cuidadoso, dizendo que não estava havendo melhora ainda, talvez porque não tinha entendido o método de trabalho dela. Pedi que ela explicasse. Resposta: nem todos os pacientes se adaptam mesmo. Deixe o dinheiro na portaria.

                Psiquiatra, o PENSADOR-CASTRADOR: ele era fabuloso, reflexivo, e me receitou fluoxetina. Tomei por um tempo, e não sei dizer se funcionou para o que devia, mas com certeza me deixou muito distraída, mais do que já sou. Parei de tomar por conta própria, usando a distração como desculpa, mas o fato de me tirar os orgasmos pesou bastante também.


                Psicóloga nº4, a SUPER-NANNY: essa está tratando a família inteira (terapia familiar). Quando chegamos, ela falou com segurança que a família é um sistema, e que a bulimia é um sintoma desse sistema, e não de um indivíduo só. Achamos duvidoso, como se um indivíduo fosse totalmente coagido pelo meio. Mas ela nos provou ao longo do tempo sua teoria. Ela é espetacular e sabe exatamente aonde quer chegar e como chegar. Obteve resultados em pouco tempo. Mas o problema é o preço. R$250,00 a sessão. Pretendo reter o que alcançamos de bom, e tchau.

terça-feira, 8 de abril de 2014

16, Pregnant and Free

MARIONETE DA LOUCURA. É assim que eu me sinto. Muitas vezes, como se não houvesse solução. Porém, o que mais me intriga, é que JÁ FUI CURADA uma vez, POR UM ANO!
Como aconteceu:


Aos 16 ANOS, bulímica, ENGRAVIDEI do meu namorado. Enquanto a gravidez era apenas uma suspeita, pensei em ABORTO. Até que minha “ex-futura-sogra” me ligou dizendo que em meia hora passava para me levar para eu fazer o exame de sangue. Nesse momento, eu sabia que ou eu desmarcava dando alguma desculpa, ou eu ia para o exame E SEGUIA em frente com a gravidez. ABRI A BÍBLIA. Falei pra Deus: “Me convença, se puder”. Caí direto em Isaías 40:11.

Como pastor ele cuidará de seu rebanho, com o braço ajuntará os cordeirinhos e os carregará no colo; as que amamentam ele guiará mansamente.”

Então, como nunca fui das escolhas cômodas, e sim daquelas que prometem mudar minha vida para sempre, assumi a doce consequência que o destino me aplicava. Minha mãe se derramou chorando, meu pai paralisou, e eu achei que já tinha visto reações dolorosas o suficiente, até que minha irmã chegou tendo um ataque de gritos. Na escola, eu ouvia as pessoas comentando sobre mim no recreio, mas nada disso me abateu. Fui a grávida mais forte que já conheci.
Logo no início da gravidez, terminei com meu namorado. Ele era maravilhoso como namorado, mas eu não me via morrendo ao seu lado, então, o quanto antes eu o deixasse, menos ele se envolveria, e mais branda seria a separação. Nunca me arrependi. Hoje ele é razoavelmente presente.
ESPERANÇA. Esse é o SIGNIFICADO DO NOME que escolhi para a minha menina. No momento em que o exame deu positivo, passei a me alimentar impecavelmente bem. Durante a gravidez e a amamentação exclusiva, não houve uma recaída sequer. FUI FORTE POR ELA. Entretanto, depois desse período, talvez pela dificuldade de ser mãe tão nova e conciliar a faculdade, a partir dos 18 anos, fui piorando cada vez mais, e cheguei a 6 vômitos por dia.
O meu remorso era gigante quando eu saía do banheiro e olhava meu nenê largado na frente da televisão, onde teria ficado por duas horas enquanto eu comia. Eu não conseguia entender... eu fui forte enquanto ela dependia dos nutrientes do  meu corpo, mas ter tempo de qualidade com ela era tão importante quanto os nutrientes, porém, eu não conseguia mais...
Nessa época eu frequentava um grupo de estudo com as meninas da igreja. Ao final de cada grupo, podíamos fazer pedidos de oração. Até que eu resolvi abrir o jogo sobre meu vício, e pedi oração. Na mesma semana, minha MÃE DESCOBRIU meu problema e me ajudou a me reerguer. Mas isso já é outra história.



Hoje ainda vomito uma ou duas vezes por dia, mas minha Esperança está viva.
Minha ESPERANÇA cresce a cada dia.


domingo, 6 de abril de 2014

Do prazer do nescau ao massacre do arroz cru

OS QUATRO MOTIVOS DE POR QUE EU COMO E VOMITO

Esses são meus motivos atuais, não significa que todas as bulímicas sejam assim.
Sem compreender a raiz do problema não conseguimos mudar, mas não significa que no momento que compreendemos, estamos curadas... eu já saquei todo meu mecanismo, mas ainda estou lutando...

A divulgação é uma faca de dois gumes. Alguém pode imitar a estupidez, e alguém pode imitar a luta. Eu, por exemplo, só provoquei o vômito quando criança porque alguém me contou que isso existia... hoje sou adulta e ainda vítima de divulgação irresponsável. Mas torço para que consiga ajudar alguém a compreender a si mesmo.




4º – EMAGRECER.

Que raiva de quem já vai assumindo que esse é meu principal motivo. Que forma simplória de pensar... esse foi meu principal motivo na primeira vez que provoquei o vômito. Mas eu era uma criança, e formulava estratégias como tal. Sempre tento mostrar que meu problema é muito mais complexo do que isso, para parecer menos medíocre, falo que o vício é a comida, e que o vômito é apenas uma forma de não ficar de cama pelo resto do dia depois do abuso, mas aqui terei que confessar que o emagrecimento ainda tem peso, mesmo que muito pequeno. Confesso minha mediocridade.
                A princípio, o ato de expelir a comida ingerida antes de ser totalmente absorvida, emagrece. Se considerarmos um evento isolado, isso é uma verdade. Mas não é tão simples. Na verdade, o desenrolar da doença com todas a implicações psicológicas de compulsão, na grande maioria das vezes, não emagrece. Maior parte das bulímicas não é gorda nem magra.
                Tenho consciência de que seria mais bonita sem a doença. Como coisas muito calóricas durante DUAS HORAS antes de vomitar, então, com certeza, no mínimo uma hora de comilança eu já absorvi. Se eu parasse de comer no ponto do prazer e não passasse ao auto-massacre (quando não aguento mais e continuo comendo) e aí então, eu NÃO vomitasse, eu seria mais magra, porque o prazer nunca excede meia hora! Além do mais, já ouvi dizer que a doença desacelera o metabolismo, e me faz sentir fraca, dificultando a prática de esportes e queima de caloria.


3º – BUSCA DE PRAZER.

                “Você quer o prazer mas não quer as consequências. Puro gosto pela impunidade”. Por favor, gente, vamos mais a fundo nesse ponto. Não é nada prazeroso não poder se curvar por sentir que o estômago está a ponto de romper, e ainda assim continuar engolindo arroz cru porque é a única coisa que tem. Porém, até isso implica sim em busca pelo prazer.
                A doença pode estar ligada à falta de outras fontes de prazer, em pessoas anti-sociais, por exemplo. A comida acaba virando uma companhia, um consolo, um afeto. Outras vezes, as fontes de prazer podem estar todas lá, mas a pessoa simplesmente não as vive por inteiro, e continua insatisfeita.
                E é aí que comemos um sanduíche pelo carinho do pai, um biscoito pela compreensão da mãe, um pastel pela melhor amiga que não existe, uma colherada de nescau pela satisfação profissional, mas só o que pensamos e sentimos naquela hora é: sanduíche, biscoito, pastel, nescau... e aquilo é muito prazeroso, por isso continuamos, e continuando, a comida começa a dar nojo, mas ainda assim continuamos, em busca daquele prazer inicial que não encontramos mais, mas não paramos de procurar.


2º – FORÇA DO HÁBITO.

                Força do hábito. Vício. Todas as vezes que eu sinto minha alma curada de toda falta de aceitação do meu corpo e dos pensamentos negativos e mal resolvidos, e sinto que posso virar a página e ser livre, é o hábito que me aprisiona. O problema fez parte de mim por tanto tempo, que simplesmente não sei outra maneira de viver, e se tento imaginar, me sinto perdida.


1º – FUGA.

                O que faz criarmos um problema com nossas próprias mãos, como a bulimia, pode ser a fuga de um problema existencial maior e mais profundo, difícil de encarar.
                As vezes sinto que me desdobro tanto para ter jogo de cintura no dia-a-dia, atender a todas as cobranças, engolir desaforos pela boa convivência, e trocar alguns sonhos por um lugar de segurança e frio, e sou tão boa nisso tudo, e ser boa acumula tanta tensão, que essa tensão precisa ser descarregada em algum lugar.



sábado, 5 de abril de 2014

A minha relação com a comida é uma putaria

Aparentemente, eu sou normal, toda “geração saúde”, levando frutinhas pra comer no intervalo da faculdade, vestida de suplex pra ir direto pra academia e levando um corpo nem gordo e nem magro.
Mas, na verdade, vivo dissimulando um comportamento anormal. Tenho embalagens de bolacha recheada e leite condensado escondidas pelo guarda-roupa. Todas vazias, porque esse negócio de guardar comida para próximos episódios hiperfágicos está fora da minha capacidade. No momento que eu tentar guardar, elas já se encontram vazias.
Ás vezes encontro uma colher suja perdida no meio dos meus cadernos e farelo de pão dentro das bolsas. A minha relação com a comida é uma putaria.
Desenvolvi habilidades muito estranhas, como enfiar qualquer coisa dentro da garganta. Com o tempo, o dedo parou de fazer efeito, e eu passei a precisar de algo introduzido profundamente para ocasionar o vômito. Em casa, é a escova de dente, que já está ficando curta. Fica apenas uma pontinha pra fora da goela, pra que eu possa segurar. Meu medo é que um dia a escova escape e vá parar no meu estômago. Essa vai ser difícil de explicar. Fico imaginando também se não estou comprometendo o mecanismo abre-fecha da epiglote...
Fora de casa, sem uma escova de dente, preciso improvisar. Já entrou cabo largo de pente, e até faca... o único talher à disposição no momento. Já entrou escova de dente alheia também... alguma bulímica já frequentou sua casa? Cuidado! Hahahahahha O que me consola é que também consigo fazer garganta profunda às vezes. Mas não precisa ter bulimia pra ter essa habilidade: treinar direto no pau é melhor!
Outra habilidade estranha: vomitar falando normalmente nos intervalos entre um jato e outro, para conversar com a minha mãe do outro lado da porta. A conversa é meu álibi. Só falta vomitar cantando e sem desafinar.
A habilidade mais óbvia de todas é a capacidade do estômago. Depois de tanto sofrimento, eu merecia o primeiro lugar em um campeonato de quem come o maior número de xis (com prêmio em dinheiro). E vale a pena ter uma barriga dilatada pra isso?


Quero finalizar esse texto cínico registrando aqui meu sentimento mais constante: TRISTEZA. TRISTEZA DE OLHAR PRA TODOS OS MEUS SONHOS, OS QUAIS EU SÓ ALCANÇAREI ATRAVÉS DE UMA CONSTRUÇÃO DIÁRIA, E SABER QUE EU PEGO A ENERGIA NECESSÁRIA PARA ESSA CONSTRUÇÃO... E DOU DESCARGA NELA.